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Direito InternacionalCompliance e Sanções

Sua conta foi bloqueada por um banco global. Você vive num país em conflito. E agora?

Ontem sua conta operava normalmente. Hoje um algoritmo em Nova York, uma resolução em Bruxelas ou uma emenda em Washington decidiu que você é o problema. E agora?

Nº 011 de junho de 20266 min

Nada envelhece um contrato bancário como uma guerra.

Ontem sua conta operava normalmente. O cartão passava, o câmbio funcionava, o TED chegava na hora combinada. Hoje um algoritmo em Nova York, uma resolução em Bruxelas ou uma emenda de sanção em Washington decidiu — sem nunca ter olhado para o seu rosto — que você é o problema. E o banco, no Brasil ou fora dele, seguiu ordens.

Nas últimas semanas, com a escalada no Golfo Pérsico, cresceu de modo dramático o volume de contas bloqueadas por bancos globais em razão de sanções ou de compliance preventivo. Empresas de comércio exterior, executivos com passaporte de dupla nacionalidade, cidadãos de países fronteiriços a zonas de conflito, tradings de commodities, prestadores de serviços de tecnologia — todos descobrindo, no mesmo instante, que a sua rotina financeira depende de decisões tomadas em cidades onde ninguém sabe pronunciar o seu nome.

O que está por trás do bloqueio

Instituições financeiras não bloqueiam contas por preconceito de nacionalidade. Bloqueiam porque são obrigadas.

Nos Estados Unidos, o Office of Foreign Assets Control (OFAC), do Departamento do Tesouro, opera com base no International Emergency Economic Powers Act e mantém a lista de Specially Designated Nationals (SDN), atualizada em tempo quase real. Na União Europeia, o quadro sanciona-se nos artigos 29 do Tratado da União Europeia e 215 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia; o repositório oficial é o EUR-Lex e a ferramenta prática é o EU Sanctions Map. No Brasil, a matéria chega pelo Conselho de Segurança da ONU e é internalizada como norma vinculante do Sistema Financeiro Nacional, sob supervisão do Banco Central.

O que poucos clientes sabem: uma regra silenciosa amplia o efeito de todas essas listas. É a chamada regra dos cinquenta por cento, consolidada nas Melhores Práticas da UE e replicada pelo OFAC. Ela determina que qualquer empresa controlada em cinquenta por cento ou mais por pessoa sancionada é automaticamente afetada pelas mesmas restrições financeiras. Basta um sócio remoto, um beneficiário final não declarado, uma subsidiária pouco visível na cadeia societária. A sanção cai em cascata.

O que a lei brasileira garante ao cliente

O bloqueio, por mais legítimo que seja em sua origem, não pode ser arbitrário. O consumidor bancário no Brasil tem três direitos essenciais:

Justificativa. O banco deve informar o motivo do bloqueio, de forma minimamente compreensível. "Motivos internos" não é resposta. "Cumprimento de política de compliance" não é resposta. É preciso indicar a lista, a resolução, o dispositivo.

Aviso prévio. O encerramento definitivo de conta exige comunicação antecipada, na forma da regulamentação do Banco Central e das cláusulas do contrato bancário. Encerramento sem aviso, no Brasil, gera responsabilidade civil e — dependendo do caso — dano moral indenizável.

Defesa. O cliente pode e deve comprovar a licitude de sua atividade e a inexistência de vínculo com pessoa ou jurisdição sancionada. É aqui que começa o trabalho jurídico de verdade.

O que um escritório especializado faz

Recuperar uma conta bloqueada não é uma questão de escrever ao banco pedindo "gentileza". É uma sequência técnica que combina direito bancário, direito internacional e engenharia societária:

Primeiro, mapeamento da estrutura: identificar todos os beneficiários finais, participações cruzadas e vínculos societários que possam estar acionando algum critério de risco automático. É frequente descobrir que o gatilho do bloqueio é um sócio esquecido em uma investida antiga, uma coincidência de nome, ou uma subsidiária que ninguém consulta há dez anos.

Segundo, opinião legal (legal opinion) endereçada ao compliance do banco — em português para o banco brasileiro, em inglês para o correspondente. A opinião demonstra origem lícita dos fundos, comprova a inexistência de vínculo com atividade sancionada, e frequentemente convence sem necessidade de litígio.

Terceiro, articulação com o compliance no exterior. O banco brasileiro raramente decide sozinho. O correspondente em Nova York, Londres ou Frankfurt tem voz — e às vezes voto. A conversa direta com o correspondente é o que destrava o processo.

Quarto, quando cabível, licença específica junto ao OFAC (specific license) ou orientação da autoridade europeia. Sim, é possível. Sim, é demorado. Sim, funciona.

Quinto, em última hipótese, discussão judicial, com pedido cautelar para preservar o mínimo necessário à continuidade operacional enquanto o restante se resolve no plano internacional.

O tempo é seu inimigo

Contas bloqueadas contaminam rapidamente. Fornecedores cortam prazos. Bancos correspondentes suspendem operações. Cartas de crédito são recusadas. Contratos internacionais entram em cláusula de descumprimento. Cada dia perdido em burocracia é um dia a mais de dano reputacional que dificilmente se recupera.

Por isso a resposta jurídica precisa começar em vinte e quatro horas — não uma semana depois. Documentos, contratos societários, extratos, atas, cadeia de titularidade, tudo precisa estar organizado no dia seguinte ao bloqueio, para permitir a montagem imediata do dossiê.

A boa notícia é que, na imensa maioria dos casos que atendemos, o bloqueio se resolve. A má notícia é que quem trata isso como problema administrativo — de "conversar com o gerente" — perde meses e, ocasionalmente, o negócio.

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